
Provisoriamente divulgamos o Consenso da Sociedade Brasileira de Infectologia para tratamento da hepatite B, versão 2006 ainda não publicada, o que só ocorreu em fevereiro 2007 no Brazilian Journal of Infectious Diseases, em inglês, o qual pode ser acessado na integra em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-86702007000100002&lng=en&nrm=iso&tlng=en
I
Consenso da Sociedade Brasileira de Infectologia para o manuseio e terapia da
Hepatite B
 
 
A Sociedade Brasileira de Infectologia, por meio de seu Comitê de
Hepatites, apresenta o seu I Consenso para o manuseio e terapia da Hepatite B.
Os temas apresentados a seguir representam a síntese dos tópicos mais relevantes
ou polêmicos discutidos pelo Grupo de Consenso* na cidade de São Roque entre 21
e 23 de julho de
Definição de Hepatite B
crônica
A definição de Hepatite B crônica recomendada pela SBI caracteriza-se
pela presença do HBsAg por mais de 6 meses, HBV DNA acima de 20.000 UI/ml,
elevação persistente ou intermitente de ALT e biópsia hepática evidenciando
atividade necro-inflamatória portal 2 ou peri-portal 1 pela classificação da
Sociedade Brasileira de Patologia (ou ISHAK 4 ou METAVIR A1). Ressaltamos que na
hepatite B crônica a intensidade do processo inflamatório é dinâmica e que em
pacientes co-infectados pelo HIV poderemos encontrar menor
atividade.
Anti HBc isoladamente positivo e
infecção oculta pelo VHB
Na
situação de um paciente com anti-HBc IgG ou total isoladamente positivo,
recomendamos a repetição do marcador acrescida do HBsAg, todos com títulos
expressos, e a vacinação (como booster) seguida da quantificação do
Anti HBs sete dias após a dose da vacina.
Em sendo possível, a pesquisa do DNA do VHB seria sempre recomendável, em
especial nas seguintes situações: co-infecção com o HIV, co-infecção com o VHC,
politransfundidos, antes de um transplante de órgão, populações de maior
vulnerabilidade, indivíduos que vão receber tratamento quimioterápico e
imunodeprimidos em geral.
Biópsia hepática: valor, indicações e
utilização dos marcadores teciduais.
A biópsia hepática possuí a finalidade de (i) fazer o diagnóstico, (ii)
graduar e estadiar a doença e (iii) diagnosticar outras doenças do fígado, em
especial a esteatohepatite alcóolica ou não alcoólica. Sempre que possível deve
ser realizada no início do seguimento (baseline), principalmente nos pacientes
HBeAg- com elevação de ALT e nos co-infectados com o HIV. Pacientes HBeAg+ com
ALT elevada só devem realizar a biópsia quando houver dúvida diagnóstica ou
suspeita de cirrose não confirmada por outras metodologias não invasivas (p.ex,
ultrassonografia).
A pesquisa
de marcadores teciduais é sempre recomendável. A presença do HBsAg alcança 100%
de sensibilidade. Quando citoplasmático representa a infecção e quando na
membrana, replicação. O antígeno do core
alcança 70% de sensibilidade. Quando nuclear representa replicação e
citoplasmático, elevada atividade necro-inflamatória. O antígeno X está em fase
de validação e aparentemente se correlaciona com o risco de evolução para o
carcinoma hepatocelular.
Quantificação do DNA-VHB: indicações e
interpretação.
As dificuldades técnicas e a falta de padronização dos controles
internos, que podem se traduzir por resultados sub-estimados ou falso negativos,
recomendam que a metodologia empregada para o seguimento de um paciente seja
sempre a mesma e, o uso de métodos in
house, não seja realizado em larga escala. O tema está revisado no Proceedings, publicado no BJID, no entanto, abaixo apresentamos os
níveis de corte mínimos onde indicamos a terapia do VHB.
|
Condição
clínica/sorológica |
Limite mínimo para
terapia |
|
HBeAg+ |
≥ 20.000 UI/ml* |
|
HBeAg- |
≥ 2.000 UI/ml* |
|
Cirrótico compensado |
≥ 2.000 UI/ml* |
|
Cirrótico em lista de transplante |
Qualquer valor/detecção |
|
Co-infecção HIV |
≥ 2.000UI/ml* |
*UI equivale a 5,6 cópias/ml
Como sugestão do painel da SBI, a
quantificação do HBV-DNA está indicada no início do seguimento (baseline) e, nos pacientes sob
utilização de antivirais, a cada 6 meses, até a indetectabilidade, quando passa
a ser anual. Na ocorrência de uma elevação dos níveis de ALT/AST, a dosagem deve
ser antecipada. Quando são utilizadas drogas com alto potencial para
desenvolvimento de resistência genotípica , como a lamivudina, por exemplo,
podem ser requeridas avaliações mais freqüentes da carga viral , principalmente
após 12 meses de uso contínuo.
Rastreamento do Carcinoma Hepatocelular
(CHC) e indicações para o transplante hepático.
De
maneira geral, os pacientes com aquisição do VHB por transmissão vertical e os
cirróticos são os de maior risco para o CHC. Dessa forma devem realizar a cada 6
meses uma ultrassonografia de fígado e a dosagem de alfafetoproteína (que pode
ser normal, mesmo na vigência do CHC). Alfafetoproteína acima de 400 ng/ml na
ausência de um nódulo, é geralmente diagnóstica do CHC. Na presença de um
nódulo, se acima de 200 ng/ml já se impõe o diagnóstico. Nódulos de mais de
O transplante hepático está indicado para os pacientes CHILD B e C (ou
CHILD A com complicações de difícil controle), na hepatite fulminante e na
presença do CHC.
Tratamento da hepatite por vírus
B
Os objetivos da terapia do VHB são: a indetectabilidade do HBV-DNA e a
negativação do HBsAg ( habitualmente rara e substituída pela negativação do
HBeAg e, ainda melhor, soroconversão para o anti-HBe+).
De maneira geral, a terapia está indicada para os pacientes com ALT
elevada, além de um nível de corte do HBV-DNA, anteriormente apresentado. ALT
elevada habitualmente é um preditor de boa resposta à terapia. Pacientes com ALT
normal e HBV-DNA detectável, devem ter a terapia indicada com base em sua
biópsia hepática – que deve evidenciar estádio de fibrose ≥2
ou atividade necro-inflamatória significativa. Finalmente, devemos avaliar o
tipo de exposição do paciente. Os infectados pela via vertical permanecem por
décadas na fase de imunotolerância e podem soroconverter entre os 30 e 40 anos,
o que exige cautela na indicação da terapia, pois trata-se de um caso que pode
se resolver espontaneamente. Já aos infectados de forma horizontal, na primeira
infância, a soroconversão pode ocorrer no fim da infância ou início da
adolescência. Nos infectados na vida adulta há uma tendência de melhor resposta
à terapia em função de uma resposta imune mais vigorosa.
Consideramos na nossa análise as cinco drogas utilizadas para a terapia
da hepatite B crônica, a saber, interferon-alfa convencional ou peguilado,
lamivudina, adefovir e entecavir, em suas doses e esquemas terapêuticos
habituais.
Tratamento dos monoinfectados pelo
VHB
Pacientes virgens de
terapia
A abordagem decisória leva em conta a presença do
HBeAg.Assim:
Pacientes HBeAg
positivos:
Consideramos nesse subgrupo a definição de pacientes com bom perfil e
pacientes mais difíceis para a terapia. Os de bom perfil são os mais jovens, com
baixa carga viral, sem co-morbidades e sem cirrose. Os mais difíceis são os mais
velhos, com alta carga viral, com co-morbidades e cirrose. O detalhamento dessas
definições pode ser avaliado no Proceedings do Consenso.
Aos portadores de infecção HBeAg+ com bom perfil, recomendamos a terapia
com interferon convencional ou peguilado. Aos com mau perfil, a utilização de um
antiviral, sendo recomendados o adefovir ou o entecavir.
Pacientes
HBeAg negativos:
Os pacientes HBeAg negativos devem ser tratados com interferon
peguilado ou com os antivirais adefovir ou entecavir. No caso dos antivirais
devido ao perfil de resistência a longo prazo, mais favorável ao entecavir,
recomendamos a sua utilização como primeira opção quando o paciente for virgem
de tratamento.
As recomendações para os pacientes virgens de terapia encontram-se
resumidas abaixo.
Pacientes com terapia pregressa para o
VHB.
Nos
pacientes com terapia pregressa com interferon, a terapia subseqüente deve ser
realizada com um antiviral, adefovir ou entecavir, considerando as reflexões
supra-citadas.
Aos pacientes tratados com lamivudina e
que expressem sinais de resistência ( elevação de transaminases, aumento maior
que 1 log10 em relação ao nadir da carga viral ) devemos associar o
adefovir por um período mínimo de
Em pacientes que apresentem resistência ao adefovir, recomendamos a
adição da lamivudina ou substituição pelo entecavir, desde que não tenha sido
utilizada previamente a lamivudina.
Ressaltamos que no momento consideramos apenas as drogas correntemente
utilizadas para a terapia da hepatite B e que brevemente novas opções
terapêuticas (clevudina,tenofovir, emtricitabina, p.ex.) trarão novas opções a
serem utilizadas e que poderão alterar a seqüência ora estipulada.
As condutas são resumidas no esquema abaixo representado.
Pacientes
cirróticos
Os pacientes cirróticos são rotineiramente divididos em compensados ou
descompensados - em lista de transplante. Para a terapia desse grupo de
pacientes não recomendamos em nenhuma situação a utilização do interferon alfa,
convencional ou peguilado.
Nos cirróticos compensados virgens de terapia, recomendamos o uso de
adefovir ou entecavir, ressaltando o potencial da utilização desta associação no
futuro. Aos já resistentes à lamivudina, seguimos as recomendações prévias.
Nos cirróticos descompensados e virgens
de terapia recomendamos monoterapia com lamivudina ou adefovir ou entecavir, na
dependência da disponibilidade das drogas. Também existe uma tendência para no
futuro utilizar-se a associação de fármacos. Aos cirróticos descompensados já
resistentes à lamivudina a recomendação é a adição do Adefovir até a realização
do transplante hepático.
Co-infecção
HBV-HIV
Critérios de inclusão para
terapia
Semelhante ao monoinfectado. A biópsia
hepática é fundamental na condução do caso, e deve ser realizada, sempre que
possível, em todos os pacientes.A indicação para tratamento da hepatite B nesse
grupo de pacientes poderá ser modificada em função da composição do esquema HAART indicado para o tratamento da
infecção pelo HIV. A tabela abaixo mostra as diretrizes básicas para a condução
terapêutica. Observe-se que o adefovir possuí o potencial teórico de indução da
resistência ao tenofovir por intermédio de uma mutação recentemente descrita,
K70E e que o interferon indicado sempre será o peguilado.
I
Consenso da Sociedade Brasileira de Infectologia para o manuseio e terapia da
Hepatite B
Coordenação: Evaldo Stanislau Affonso de Araújo
Organização: Sociedade Brasileira de Infectologia – Comitê de Hepatites
João Silva Mendonça, Roberto Focaccia, Fernando Lopes G. Junior e Evaldo Stanislau Affonso de Araújo.
Grupo de Consenso:
Aline G. Vigani
Ana Teresa Rodrigues Viso
André Cosme de Oliveira
Antonio Alci
Barone
Edgard
DeBortholi
Edson
Abdala
Evaldo Stanislau Affonso de Araújo
Evandro S. de Melo
Fátima Mitiko Tengan
Fernando Lopes Gonçales
Jr
João da Silva Mendonça
José Carlos Fonseca
José Fernando de Castro Figueiredo*
Marcel Cerqueira*
Marcelo Simão Ferreira
Maria Helena P.Pavan*
Marta Heloísa Lopes*
Neiva S.L.
Gonçales
Norma de Paula Cavalheiro
Ricardo S. Diaz
Roberto Focaccia
Rodrigo Angerami*
Umbeliana Barbosa Oliveira
Venâncio Avancini*
* Revisores não participantes da reunião de consenso.